Explicação necessária

Explicação necessária

Meus Irmãos

Apesar de certa facilidade em psicografar as mensagens espirituais de Ramatís, sempre tive estranha antipatia por esta obra intitulada Magia de Redenção. Há mais de 15 anos que tenho protelado a sua publicação, devido à natureza do seu assunto um tanto desagradável e complexo. Embora de formação mística e filho de mãe extremamente católica, acessível a crenças mitológicas e a algumas superstições tradicionais, nutria em mim, até há pouco tempo, uma invencível repulsa contra o feitiço. Algumas vezes, eu admitia os absurdos da bruxaria, mas, em seguida, descria, por considerar profunda humilhação à minha categoria de civilizado ocupar-me de semelhantes fenômenos.

Nasci entre criaturas pobres e inúmeras vezes identifiquei o chamado feitiço sob as mais extravagantes manifestações, coisa comum e freqüente nos cortiços, onde se aglomeram criaturas primárias, deserdadas ou frustradas da sorte. Sem dúvida, impressionavam-me os casos de pessoas enfermas, que readquiriam a saúde e até a locomoção, deixando as cadeiras de rodas após certos desmanchos de feitiçaria processados por pretos velhos, rezadores, curandeiros, benzedores e entendidos que mandavam abrir travesseiros e colchões ou descobriam mandingas ocultas nos lugares mais incomuns. Cresci em tal ambiente e a minha crença infantil no feitiço foi bastante reforçada pelas histórias e lendas, que ouvia no lar entre a família algo supersticiosa.

Mas, ao atingir a maturidade, depois de ter sido sacristão, mentor de catecismo e mudar-me posteriormente para o protestantismo, fui acometido por um arras ante ceticismo. A seguir, julguei-me um “leão”, que podia libertar-se facilmente da jaula dos dogmas e preconceitos religiosos. Sacudi a juba de adolescente, rugindo contra todas as crenças. Eufórico e convicto de ter descoberto a realidade da vida, proclamava aos quatro ventos o meu ceticismo, a minha descrença absoluta e o ridículo das místicas humanas! Respirando a longos haustos o oxigênio das novas convicções de “homem”, rindo e zombando das devoções e crendices alheias, penetrei no cenário do mundo desafiando templos e doutrinas que se nutriam do combustível da alma imortal, assim como Dom Quixote se arremessava contra os moinhos de vento!

Tornei-me ateu! 1 Aliás, mais tradicionalmente materialista! E de roldão lá se foram os ouropéis e as quinquilharias colhidas na infância e resguardadas na mente conservadora, como acontecimentos anticientíficos e próprios de criaturas ingênuas ou primárias. Ria-me, às vezes, sozinho, ao rememorar o meu temor infantil diante de um sapo de boca costurada ou em face dos artesanatos dos feiticeiros, que emaranhavam fios, agulhas, resíduos, metais e penas de aves para “enredar” a vida do próximo! Doía-me o coração ante o sacrilégio às imagens de Cristo, sem braços ou sem pernas, destinadas a feitiços; ou de Santo Antônio, enforcado, jogado nas cisternas de água, a fim de arranjar noivo para moça casadoira. E os cachos e punhados de cabelos trançados com fio vermelho, ornando grotescos bonecos e caricaturas dos enfeitiçados? O feitiço era pródigo de imagens em minha infância. Mas, por fim, espanquei da mente todos os fantasmas excêntricos aderidos à simplicidade da infância.

Finalmente, passaram-se os anos e a mediunidade manifestou-se em mim, surgindo Ramatís, que logo começou a interessar gregos e troianos através de suas mensagens inéditas, que expunham a vida noutros orbes à guisa de guia de turismo. Após tantas peripécias, psicografei uma dezena de obras ditadas por esse eminente espírito, e agora entrego mais esta Magia de Redenção, cuja publicação retardei 15 anos, até que o espírito de Nhô Quim 2 despertou-me dessa indiferença “subconsciente”, provinda talvez do meu amor-próprio, temendo eventual humilhação.

Consideramos a dita obra eletiva às pesquisas e ao interesse dos leitores simpáticos ao seu conteúdo um tanto esdrúxulo; ou então motivo de censura e protesto dos líderes de nossa augusta ciência acadêmica, a qual vai descobrindo “oficialmente” aquilo que os velhos alquimistas, bruxos, mesmeristas, hipnotizadores, magos e curiosos do passado já descobriram “secretamente”! Hosanas, pois, aos crentes e respeito aos descrentes das obras de Ramatís.

Curitiba, 20 de agosto de 1967

 

Hercílio Maes
(Médium)

 

1 – Lembrando-me dessa época de quixotesco ateísmo, transcrevo a trova n° 50, do excelente livrinho psicografado por Chico Xavier, Trovadores do Além, a qual diz:

            “Ateu – enfermo que sonha

            Na ilusão em que persiste,

            Um filho que tem vergonha

            De dizer que o pai existe.” 

            2 – Nhô Quim é a individualização perispiritual de um excelente homem, filósofo sertanejo, espírito arguto, ágil, finíssimo e repentista, que viveu perto do litoral paranaense e cuja obra “Carrapichos de Nhô Quim” está sendo ultimada para o prelo. Há dez séculos passados, ele foi o discípulo Fuh-Planuh, irmão de uma vestal chinesa, que fugiu de um templo e desposou um tapeceiro hindu, nascendo de ambos a entidade que hoje conhecemos por Ramatís. Vide, o rodapé do capítulo “Enfeitiçamento Através de Objetos”, o esclarecimento de Nhô Quim ao médium.

 

direita-seta

Próximo

esquerda-seta

Anterior

Índice de Magia de Redenção

Invocação às Falanges do Bem
Duas palavras
Explicação necessária
Prefácio
Palavras de Ramatís
1. Considerações sobre o feitiço
2. Enfeitiçamento verbal
3. Enfeitiçamento mental
4. Enfeitiçamento por meio de objetos
5. Enfeitiçamento por meio do sapo
6. Enfeitiçamento por meio do boneco de cera
7. Enfeitiçamento por meio de metais organogênicos
8. Enfeitiçamento por meio da aura humana
9. O uso do cabelo na feitiçaria
10. O mau-olhado
11. O uso de amuletos e talismãs
12. Benzimentos e simpatias
13. As defumações e as ervas de efeitos psíquicos
14. A importância dos ritos, cerimónias e conjuros
15. A influência das cores na feitiçaria
16. Os males do vampirismo
17. O feitiço ante os tempos modernos
18. O feitiço e o seu duplo efeito moral