O feitiço ante os tempos modernos

Capítulo 17

O feitiço ante os tempos modernos

 

            PERGUNTA: – O feitiço tende a se extinguir, na atualidade?

RAMATÍS: – Porventura, tendem a extinguir-se, também, o ódio, o ciúme, a raiva, malícia, inveja, hipocrisia, maldade, luxúria, avareza, traição, violência, corrupção política e administrativa, prostituição, miséria, delinqüência juvenil, os vícios de entorpecentes, alcoólicos e o fumo; as guerras fratricidas, os genocídios, as aberrações sexuais, o comércio médico da dor e a indústria da cirurgia mutilante, o abandono de menores, o aborto organizado, os vendilhões da imprensa, as pilhagens dos “trustes”, as traições conjugais, os matadouros sangrentos, as guerras cruentas e o carnivorismo famélico?

Que é o feitiço senão um acontecimento proveniente de tudo isso? Aliás, é uma derivação até salutar, porque, através dele, os seus autores expelem para fora, num ato positivo, as idéias malignas e os sentimentos subvertidos que lhes vicejam na alma, e assim fazem jus à expiação decorrente do seu enquadramento na Lei do Carma! O feitiço atormenta e prejudica, mas ainda é uma conseqüência irrisória, em face dos males que os homens semeiam cotidianamente sob a mistificação de “boas intenções”! Há homens que, eleitos para ‘administrar os bens públicos, traem os votos assumidos e amealham inescrupulosamente para o seu clã familiar, negociando a confiança alheia em troca de moedas. Outros, agaloados de ricos uniformes, espécie de robôs obedientes, ordenam ou cumprem ordens para o massacre indistinto de mulheres, crianças, jovens e velhos, arrasando cidades, templos, escolas e vivendas, de modo ainda mais destruidor e eficiente, do que faziam o famigerado Davi da Bíblia, Átila, Gêngis-Khan ou Tamerlão, na chefia dos bárbaros! Tudo isso é bruxaria, pois prejudica o próximo, aleija-o e o mata sob o espírito vingativo da maldade humana!

Quem faz o seu feitiço particular ainda tem algum motivo justo ou provocação alheia para assim proceder; mas, que se deve dizer da vastidão do feitiço pátrio, que, em vez de sapos e bonecos de cera, exige homens sadios para o corte sangrento nos matadouros das guerras? E os homens fesceninos, que arrastam milhares de jovens para as pocilgas da prostituição; que esperam meninos e meninas às portas dos colégios para viciá-los nos entorpecentes? E dos religiosos que consagram canhões, submarinos e armas destruidoras, benzendo-os em nome de Deus; ou os cientistas, que se consomem nos laboratórios do mundo a fim de descobrir armas eficientes para destruir milhões de criaturas, de uma só vez?

 

 

PERGUNTA: – Certo confrade admira-se da vossa insistência em convencer os leitores da lógica do enfeitiçamento! Que dizeis?

RAMATÍS: – Em face da situação atual tão subvertida do mundo, não cremos que ainda pudéssemos produzir males piores do que a humanidade terrena já criou para si mesma! O próprio Diabo, se realmente existisse na sua configuração mitológica tão excêntrica, já teria optado pela sua aposentadoria ante a frustração e a incapacidade de praticar tanta perversidade e males, como os terrícolas já conseguiram produzir sem convocar os recursos do império infernal! Satanás, ainda às voltas com os caldeirões de água fervente, obsoletos e insuficientes, ficaria completamente desmoralizado e liquidado, ante a eficiência da bomba atômica produzida pelo homem, a qual liquefez 120.000 criaturas nascidas para compor a família humana e viverem ideais, amores, venturas e alegrias, sob o paraninfo da Ciência, Arte e Religião!

O feitiço, paradoxalmente, beneficia no seu mecanismo confrangedor, porque estimula a vítima a procurar soluções para o seu problema cruciante, e a coloca em contato com as criaturas entendidas no caso, como são os curandeiros, pretos-velhos e caboclos de terreiros. Inúmeros enfeitiçados, depois de comprovarem a intervenção benfeitora do mundo oculto na sua existência atribulada, então moderaram os vícios e as paixões que os prejudicavam na vivência espiritual. Eles admitiram a Lei do Carma e a lógica da Reencarnação, por força do impacto enfeitiçante, e disciplinaram os seus atos futuros melhorando o seu crédito na Contabilidade Divina. Os sofrimentos e as vicissitudes causadas pelo feitiço também amenizam a culpa cármica pregressa do espírito endividado e reduzem-lhe os padecimentos nos charcos purificadores do Além-túmulo. Ele sofre, antecipadamente, parte de sua expiação ainda na carne! O feitiço também pode ser o mal saldando o próprio mal, assim como a lixa faz o polimento da madeira rústica, o ácido limpa a vidraça suja e o cautério imuniza a ferida insolúvel!

 

PERGUNTA: – Quereis dizer que tanto a vítima como o feiticeiro podem usufruir de benefícios na prática ignóbil de feitiçaria?

RAMATÍS: – Conforme a Lei Espiritual, o indivíduo “colhe o que semeia”; portanto, quem faz feitiço será enfeitiçado, e quem é enfeitiçado já fez feitiço! Ademais, a pessoa que contrata feiticeiro ou espíritos malévolos para fazerem bruxaria, expurga ou materializa num ato público o mal latente que vivia sub-repticiamente no âmago de sua alma. Obviamente, já era um feiticeiro em potencial, que apenas aguardava motivo ou ensejo para concretizar num ato mais objetivo a idéia maligna que alimentava na sua mente pervertida!

O potencial maligno existente na sua alma ainda não podia ser punido, porque é da própria lei humana, que não se condena o indivíduo pelo que ele pode fazer, mas somente por aquilo que ele faz! Mas depois de praticar o feitiço, ou materializar a intenção malévola, o autor comprovou a sua perversidade e já pode ser punido ou retificado pela Lei do Carma. O feiticeiro, portanto, já é um feiticeiro em potencial antes de praticar a bruxaria, assim como o ladrão já é ladrão antes de surgir o ensejo de ele roubar! O feitiço ou o roubo apenas confirmam publicamente um mal que já existe latente no âmago do ser!

 

PERGUNTA: – Essa concepção algo excêntrica não induziria o homem a botar para fora todos os seus pecados em potencial? Então, o homicida mataria de imediato, o luxurioso punha-se à cata de mulheres; e o corrupto buscaria ensejos para concretizar a sua tendência nefasta a fim de esgotar as suas tendências pecaminosas!

RAMATÍS: – Sem dúvida, mil vezes o sentimento que beneficia, em vez da maldade que destrói. Os pecados humanos, latentes ou potenciais, podem sublimar-se pela renovação crística ou reduzir-se pelo discernimento espiritual que o homem tiver de si mesmo! Mas isso sucede conforme o desenvolvimento espiritual, pois o acervo inferior herdado do animal serve de suporte imprescindível para a formação da consciência individual. O pecado, em verdade, provém do mau uso que fazemos dos instintos e paixões animais, que já foram superados pelo nosso entendimento superior da razão! O próprio Jesus advertiu que se deveria transformar a energia que sustenta o pecado, em forças domesticadas a favor da ascese angélica!

O nosso propósito é demonstrar-vos que ninguém faz feitiço caso não exista em si mesmo o potencial ou a tendência para praticar tal ato censurável. É de senso comum que, de um negativo fotográfico imoral, só se pode revelar uma fotografia imoral!

O homem que odeia no silêncio de sua alma não se torna pior depois que pratica um ato odioso em público; mas ele já é assim, muito antes de materializar a sua perversidade! O pecado que mora na mente do homem é o mesmo que depois surge à luz da vida humana, quer seja por descontrole emotivo, explosão de cólera ou espírito de desforra! Há homens frios, que podem examinar e observar os seus pecados, capazes de mantê-los sob controle ou disfarces, evitando prejuízos morais ou julgamentos desairosos em público. Tais criaturas são pusilânimes na sua frieza calculista, pois, embora desejem vingar-se da menor ofensa do mundo, preferem aguardar o ensejo providencial para a desforra covarde e anônima! O feitiço, então, lhes serve de excelente oportunidade para expressarem a sua perversidade oculta, pois lhes falta a coragem e a hombridade suficientes para assumirem os resultados de sua sanha maligna.

As criaturas excessivamente temperamentais, sem controles emotivos e arrastadas pelas suas próprias emoções a atos que depois deploram, são menos culposas do que os homens prudentes e cautelosos, que comandam friamente as suas reservas. malévolas e pecaminosas! Semelhantes às fontes de água estagnada ou cisternas poluídas, eles ferem traiçoeiramente o primeiro imprudente que ousa diminuir-lhes o patrimônio egocêntrico.

A Divindade respeita o direito de o homem acumular reservas de pensamentos e projetos destrutivos, mas depois o enquadra, implacavelmente, sob as leis da expiação redentora, quando ele movimenta essas energias em desfavor de outrem.

 

PERGUNTA: – O feitiço verbal, mental e físico, não tende a desaparecer pelo progresso científico do mundo?

RAMATÍS: – Como o feitiço não é exclusivamente produto de superstições ou crendices, mas proveniente da ruindade humana, quando esta desaparecer, ele também deixará de existir! Ele se fortifica no clima mantido pelas ações pecaminosas dos homens, as quais adensam o lençol de éter-físico da Terra, tornando-o excelente transmissor de cargas maléficas e energias degradadas! Fundamenta-se nas vibrações de ódio, inveja, ciúme, cólera, vingança, frustração, despeito e luxúria, no campo psíquico, e alimenta-se do tônus vital fornecido prodigamente peio sangue dos matadouros do corte animal e das “charqueadas humanas”, nos campos de batalha.

Considerando-se que “o feitiço volta-se contra o feiticeiro”, a humanidade terrena não “enfeitiça”, mas “enfeitiça-se”! Por isso, a maior parte da humanidade está reciprocamente embruxada, devido à renovação incessante do alimento mórbido que se gera nas paixões descontrola das e nos vícios abjetos. O ódio é um sentimento dominante entre as criaturas frustradas, despeitadas e invejosas, o ciúme envenena dentro e fora dos lares, atormentando esposos, noivos e namorados, que tentam arrendar a ventura alheia para a sua exclusividade; a cólera viceja entre os homens impacientes e intolerantes! Enquanto isso, os espíritos primários e vingativos vertem um tonel de veneno, para indenizar algumas gotas de ácido que lhes foi borrifado pelo próximo! E quanto ao sangue tão imprescindível para fornecer o tônus vital, os matadouros, frigoríficos e as churrascarias do mundo, então, se encarregam de fornecer diariamente as quotas ambicionadas pelos vampiros do Além!

Evidentemente, a bruxaria há de desaparecer da face da Terra por falta de alimentação mórbida, assim que a humanidade libertar-se da espantosa corte de corrupções, vilanias, pilhagens, guerras, racismos, carnivorismo e prostituição! Caso isso não aconteça, em vez de desaparecer da crosta terráquea, o feitiço ainda há de socorrer-se da própria ciência, numa aplicação mais higiênica e eficaz!

 

PERGUNTA: – Como poderíamos entender essa “aplicação mais higiênica e eficaz” da feitiçaria sob a cooperação da ciência moderna?

RAMATÍS: – Antigamente, o mundo oculto era apanágio exclusivo de certos magos, alquimistas, feiticeiros ou exorcistas, que sabiam manejar as leis do plano invisível e catalisar objetos apropriados para as suas façanhas incomuns. Mas eles exauriam as suas forças para a consecução de práticas de magia com o Além, e nem sempre havia compensação dos tremendos esforços despendidos para o contato com o invisível!

Os magos muniam-se dos apetrechos mais estranhos e heterogêneos, tais como ervas, espadas, objetos de metal, resíduos de arvoredos magnéticos e até da presença catalisadora de aves e reptis, a fim de obterem uma pitada de ectoplasma, cousa hoje tão comum entre os médiuns de fenômenos físicos. Após isso, eles mal conseguiam vislumbrar a imagem fugaz de um elementar e quando havia mais sorte, surgiam os traços fugitivos de um morto vagando pelo Além-túmulo! 1

1 – Vide notas 4 e 5 do capítulo “Antigüidade do Fenômeno Mediúnico e Sua Comprovação Bíblica”, da obra Mediunidade de Cura, Ramatís, Editora do Conhecimento.

Mas a ciência moderna estuda e descobre a constituição da matéria, identificando raios, ondas, emanações, fluidos, radiações, corpúsculos, partículas, probabilidades de ondas, elétrons, pósitrons, nêutrons etc. Penetrando na esfera da mente humana, ela investiga as ondas ultra-cerebrais, percebe as “formas-pensamentos”, fotografa o corpo etérico, examina o ectoplasma, assinala a especificidade do fluido nervoso e não tarda em descobrir a contextura incomum do duplo etérico.

Obviamente, os cientistas não tardarão em inventar aparelhos supersensíveis, os quais poderão projetar à distância eflúvios eletromagnéticos, bons ou ruins, semelhantemente ao processo de radiofonia, televisão e radiofoto. Conforme a freqüência de tais ondas, raios ou controles-remotos, eles poderão lançar fluidos terapêuticos sobre determinados enfermos, ou, invertendo-lhes os pólos, projetar descargas eletrizadas, ofensivas e enfeitiçantes contra certos desafetos! A humanidade, muito evoluída intelectual e cientificamente, mas pessimamente atrasada em relação ao sentimento, então poderá desenvolver excelente atividade de bruxaria científica sob controle-remoto, que o feiticeiro “diplomado” sintonizará com a freqüência peculiar da vítima!

Os avançados feiticeiros modernos hão de rir desapiedadamente dos seus velhos colegas, pobres bruxos amadores, improdutivos e desconhecedores do feitiço em massa, assim como os médicos de hoje riem dos seus colegas de antanho, que faziam do consultório um aquário de sanguessugas, ou uma sala de ferreiro para as cauterizações tradicionais da época. A prática anacrônica de os espíritos desencarnados roubarem tônus vital através de travesseiros de penas ou colchões de crina, à noite, quando a vítima dorme, também será superada com extraordinária eficiência. Eles poderão obter abundância de fluido vital dos humanos, com a aplicação de emissões infravermelha ou ultravioleta sobre as vítimas, por parte dos feiticeiros encarnados. Há de ser uma conseqüência do progresso humano, pois antigamente o primata esmagava o crânio do adversário com uma acha de lenha, mas o homem de hoje faz o mesmo de modo “civilizado”, usando o revólver eletrônico!

Futuramente, as pessoas mais credenciadas pela fortuna poderão espicaçar os vizinhos indesejáveis, parentes ingratos, desafetos obstinados ou competidores bisonhos, à distância, ligando excelentes aparelhos de “vingança eletrônica” em determinadas horas, assim como hoje se ligam os aquecedores no conforto do lar. E como o feitiço é fruto da má índole da humanidade e não de práticas primitivas, é provável que o futuro nos mostrará casas especializadas nesse ramo, expondo em luxuosas vitrinas, bem decoradas, objetos e coisas de bruxaria, como perucas, tranças, maços de cabelos, sapos plásticos e bonecos eletrificados muito próprios para os enfeitiçamentos modernos. Naturalmente, será alardeada a eficiência dessa ou daquela marca, com faixa de freqüência mais ampla e excelente penetração na aura dos candidatos mais renitentes à bruxaria!

Ante o peculiar requinte dos terrícolas, que transformaram o primitivo tacape de abrir o crânio do companheiro na eficiente bomba atômica de pulverizar milhares de seres, não será difícil que também “eletrifiquem” o feitiço, inclusive a confecção de amuletos e talismãs transistorizados. E os “testes” para comprovar a eficiência de tais conquistas modernas, que deixarão à distância os anacrônicos feitiços de hoje, tão anti-higiênicos através de penas de galinhas, crinas de cavalo ou sapos de boca costurada, poderão ser feitos em gatos, cachorros e outras cobaias. Provavelmente, os ambiciosos políticos de todos os tempos, que hoje consultam os “babalaôs” para o despacho da encruzilhada, servir-se-ão de todos os recursos modernos do feitiço, numa porfia intensa contra os seus adversários litigantes!

E a ciência e a técnica do mundo, como tem acontecido, mais uma vez contribuirão para que o cidadão terreno possa destruir-se, reciprocamente, no intercâmbio da bruxaria modernizada, eletrônica e eficaz!

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Índice de Magia de Redenção

Invocação às Falanges do Bem
Duas palavras
Explicação necessária
Prefácio
Palavras de Ramatís
1. Considerações sobre o feitiço
2. Enfeitiçamento verbal
3. Enfeitiçamento mental
4. Enfeitiçamento por meio de objetos
5. Enfeitiçamento por meio do sapo
6. Enfeitiçamento por meio do boneco de cera
7. Enfeitiçamento por meio de metais organogênicos
8. Enfeitiçamento por meio da aura humana
9. O uso do cabelo na feitiçaria
10. O mau-olhado
11. O uso de amuletos e talismãs
12. Benzimentos e simpatias
13. As defumações e as ervas de efeitos psíquicos
14. A importância dos ritos, cerimónias e conjuros
15. A influência das cores na feitiçaria
16. Os males do vampirismo
17. O feitiço ante os tempos modernos
18. O feitiço e o seu duplo efeito moral