Prefácio

Prefácio

Estimados Irmãos

 

Magia de Redenção é mais uma obra ditada por Ramatís abordando um assunto delicadíssimo e controverso, como é a prática de bruxaria. Os povos supersticiosos e apegados às crendices exageram tolamente a feitiçaria; mas os acadêmicos e cientistas negam-na, por força de superstição negativa e temerosos de desvalorizarem os seus conhecimentos “positivos” sobre os fenômenos do mundo material.

Ramatís penetrou corajosamente no campo de atividade das forças ocultas subvertidas pelas mentes vigorosas dos magos das sombras. Enfrentando gregos e troianos, ele expõe-se ao ridículo de uns e à admiração de outros; mas, decidido, quebra “tabus” e sacode dogmas! Suas obras, apesar de contestadas apressadamente por alguns líderes das elites espíritas conservadoras, ainda temerosos de assuntos complexos e espinhosos, são de natureza didática e acessíveis à mente popular.

Têm o odor das coisas agrestes, de seiva forte, malgrado ser amargosa para os paladares muito açucarados. São mensagens às criaturas libertas de injunções sectaristas e de preconceitos religiosos, que se animam de apanhar rosas, onde os velhos e sisudos jardineiros desistem, por temor dos espinhos!

Ramatís poderia filiar-se à mesma linha convencional das entidades deste lado, que transmitem para a Terra assuntos já consagrados pelo “imprimatur” espírita. Porém, ele deu preferência em abordar e analisar problemas controvertidos e criticáveis, embora curiosos e inéditos, desmontando as prateleiras arrumadinhas das mentes condicionadas a clichês tradicionais, pondo à mostra inegáveis preciosidades, que não podiam ser identifica das pelos óculos escuros dos conservadores.

Ramatís perturba o sono dos crentes ortodoxos, pois cuida de assuntos esquisitos, como profecias, astros intrusos, planetas habitados, engenhos siderais, discos-voadores, visões apocalípticas, técnicas de enfeitiçamento, câncer cármico, escolástica hindu, calendário sideral, descida angélica, respiração cósmica, umbanda, teosofia, rosacrucianismo e ioga, ainda estendendo-se a outras “coisinhas sem importância”, como o Prana, Éter Cósmico e Físico, Duplo Etérico, Chacras etc. Para alguns é um pretenso mestre ventilando mensagens esdrúxulas, incomodando os acomodados, trazendo um tempero estranho ao paladar comum! Imprudentemente, ainda foi mexer com o carnivorismo do “bicho-homem”, despertando fúrias naqueles que muito apreciam comer carne, fumar e ingerir alcoólicos!

Foi tachado de herético pelos roustanguistas do “corpo fluídico”; e de irreverente pelos espíritas crentes de que Jesus “evoluiu em linha reta” quando biografou o Mestre Amigo sem a fantasia da “imaculada concepção” afirmando que Maria também era sujeita às leis comuns da genética humana! Ele cometeu o sacrilégio de afirmar que Jesus, o Instrutor Impecável, também fez a sua ascensão espiritual tão igualzinha como os demais homens, frisando que cometeu seus pecadilhos, paixões e deslizes alhures, quando ainda estava submetido à didática dos mundos físicos! Eriçou o pêlo dos crentes lacrimosos, mostrando a infância do Nazareno como um “menino-problema” pois era honesto, sincero, puro e íntegro, destoando completamente do critério e dos hábitos comuns às crianças de sua época. Negou os milagres de feira atribuídos a Jesus, explicando a incoerência de ele transformar a água em vinho, nas Bodas de Caná, cujos convidados, já fartos de beber, só poderiam atingir o coma etílico com nova provisão de álcool! Esclareceu que o fato de o Mestre caminhar sobre as águas, multiplicar cinco mil pães e peixes, ou providenciar outros milagres excêntricos, isso não implicaria na transformação de pecadores, mas apenas criaria uma turba de fanáticos deslumbrados por esses acontecimentos incomuns. Também desvestiu Jesus da ira, turbação emotiva e fúria inexplicável numa entidade angélica, desmentindo que ele houvesse chicoteado os mercadores que faziam suas vendas fora dos muros do Templo de Jerusalém!

No entanto, as obras de Ramatís divulgam-se e aliciam adeptos incessantemente, porque é da índole humana ter curiosidade pelo que lhe é proibido. O cristianismo sobreviveu, graças às perseguições adversas; o espiritismo criou fôlego e impôs-se, em definitivo, depois da queima de suas obras no auto-de-fé de Barcelona! São as críticas, os protestos e as inconformações dos conservadores que, justamente, incentivam os leitores a conhecerem Ramatís! Quando ainda vivíamos na carne, certo literato brasileiro dizia-nos, convicto: “Querendo chamar a atenção do público é simples: proíba!” Ademais, o “Grande Arquiteto”, como dizem os amigos maçons, de tempo em tempo, envia à Terra mensageiros ousados e de imaginação fora da rotina, que expõem mensagens construtivas, mas prematuras, as quais, no entanto, mais tarde são consagradas pela opinião da maioria. Assim foi Crishna, Moisés, Buda, Confúcio, Fo-Hi, Jesus, Kardec ou Gandhi, que saíram campo afora, arriscando a sua estabilidade no cenário terrícola, ousando perturbar os estudantes que trafegam tranqüilos pelas “estradas asfaltadas” dos credos e religiões certinhas em direção ao Paraíso!

Aí está Magia de Redenção, obra corajosa, a cuidar de assunto assaz cáustico e amargo, como é o feitiço! É coisa imprópria de ser comentada entre os prosélitos “sabem tudo”, pois obriga a uma incômoda deslocação mental da paisagem trivial, focalizando calhaus, paus podres, sapos e víboras! O feitiço é condimento recusado pelos paladares muito afeitos à cozinha comum, pois o homem habituado a feijão com arroz arrepia-se diante de uma bacalhoada superapimentada! A criança amamentada a leite em pó entra em estado’ de coma com algumas gotas de conhaque!

Existe o feitiço? Não existe? Que importa? Ramatís poupa-nos o trabalho de fazer tal investigação espinhosa e livrou-nos de muita confusão. Através do seu médium, criatura despreocupada de críticas, julgamentos prematuros ou glorificações do mundo, ele oferece-nos um novo acervo de esclarecimentos e advertências sobre a velha arte de “embruxar o próximo”, coisa que a própria Eva conseguiu satisfatoriamente sobre o ingênuo Adão! Aí está a obra para ser autopsiada pelos competentes legistas do labor alheio e darem o seu veredicto final. Mas, tranqüilize-se o leitor, pois ninguém será “embruxado” só por ler esta obra, salvo se ainda lhe perdura algum velho desejo latente de “fazer feitiço”, pois, conforme diz velho adágio: “Quem deseja perder o vício de fumar, evite encontrar cigarro aceso!” Aliás, todos nós estamos mais ou menos enfeitiçados ou “encantados” em nossa vida humana. O fumante inveterado está enfeitiçado pelo entorpecente da nicotina, o beberrão pelo álcool, o carnívoro pela carne e o jogador pelo carteado! Todos nós precisamos de um bom trabalho de “desmancho” para então readquirirmos o nosso comando mental e livrarmo-nos dos “objetos” que nos “embruxam” e nos obsidiam cotidianamente. Há pessoas enfeitiça das pelo orgulho, ciúme, amor-próprio ou rancor; outras enfermam pela ação das forças ocultas da Inveja! Por isso, Jesus advertia: “Onde tu estiveres, aí estarão tuas obras!”

E quanto à critica de gregos e troianos, leia-se a história do mundo! Não são os críticos ou julgadores a priori, que injetam vida ou morte a qualquer obra. O povo, com o seu bom-senso intuitivo, é quem decide a glória ou o fracasso dos autores.

Há milhares de exemplos da tolice da crítica precipitada contra o labor alheio tentando superar o maior critico de todas as eras – o tempo! Diz o poeta Alfred de Vigny: “A critica é uma opinião qualquer de um cavalheiro qualquer!” Na China, dizia-se da crítica: “O critico é um burro amestrado que pretende ensinar os burros não amestrados!’Voltaire, precipitadamente, considerou a Divina Comédia de Dante Alighieri o “delírio de um bárbaro”; o famoso Léon Daudet, depois de o apresentarem a Napoleão, no início de sua carreira militar, opinou que ali estava um prodigioso imbecil com seus delírios; críticos franceses acoimaram Balzac, o fabuloso autor da Comédia Humana de escrevinhador para analfabetos; certo crítico espanhol leu o Don Quixote e tachou-o de obra de “um enfermo”! Dois filmes terrivelmente combatidos pela crítica, que os arrasou de início, ficaram anos em cartaz sob o entusiasmo e o beneplácito do público: foram Belinda e E o Vento Levou. Dizia o poeta Ramón de Campoamor: Todo es según el color del cristal con que se mira! E o povo, que aprecia olhar as coisas com os seus próprios olhos, então vibra com a força emotiva penetrante de sua alma, desprezando os roteiros e guias de turismo modelados pela crítica do mundo, para decidir-se mediante a sua própria convicção alicerçada no bom senso. Ainda, na China, antes de alguém submeter uma obra à razão severa da crítica, era costume enviar um vidro de remédio para o fígado do crítico. Questão de segurança!

Por isso, é melhor deixarmos que o leitor julgue a obra, cumprindo-nos respeitar, igualmente, a opinião favorável ou desfavorável, porque é o povo, realmente, quem há de estigmatizar ou consagrar as mensagens de Ramatís.

E quanto à crença no feitiço, isso é questão de oportunidade! Há gente que não crê em bruxaria; mas fica apavorada, quando descobre um fio vermelho na bainha da calça, uma coroa de penas de galo no travesseiro ou um sapo indesejável a coaxar obstinadamente debaixo da janela batida pela chuva miúda. Cremos que é por força de tal procedimento, a resposta hábil e cuidadosa de conhecido cientista muito sensato, que assim disse numa entrevista sobre o feitiço: “O feitiço é uma superstição, com que certos entendidos conseguem prejudicar o próximo.”

 

Curitiba, 15 de agosto de 1967

J.T. 1

 

1 – Por motivos óbvios, deixamos de identificar o Irmão J. T., escritor desencarnado no Brasil, que prefere o anonimato a fim de evitar qualquer contenda inútil. As iniciais “JT” correspondem ao mais famoso personagem de sua obra “adulta”, já incorporado ao imaginário brasileiro. A irreverência, a coragem critica e a lucidez irônica e inteligente desse espírito de ex-ateniense plasmaram um estilo inconfundível, e o leitor que o tiver conhecido, mesmo que só na infância, não terá dificuldade de reconhecê-lo.

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Índice de Magia de Redenção

Invocação às Falanges do Bem
Duas palavras
Explicação necessária
Prefácio
Palavras de Ramatís
1. Considerações sobre o feitiço
2. Enfeitiçamento verbal
3. Enfeitiçamento mental
4. Enfeitiçamento por meio de objetos
5. Enfeitiçamento por meio do sapo
6. Enfeitiçamento por meio do boneco de cera
7. Enfeitiçamento por meio de metais organogênicos
8. Enfeitiçamento por meio da aura humana
9. O uso do cabelo na feitiçaria
10. O mau-olhado
11. O uso de amuletos e talismãs
12. Benzimentos e simpatias
13. As defumações e as ervas de efeitos psíquicos
14. A importância dos ritos, cerimónias e conjuros
15. A influência das cores na feitiçaria
16. Os males do vampirismo
17. O feitiço ante os tempos modernos
18. O feitiço e o seu duplo efeito moral